EU NÃO TENHO A ALMA COVARDE



EU NÃO TENHO A ALMA COVARDE
Emily J. Brontë

Eu não tenho a alma covarde,
Pois frente aos vendavais, eu nunca tremo:
O Paraíso brilha, arde,
Como a fé, pela qual eu nada temo.
Deus, meu peito Te abrigou.
Deidade poderosa e onipresente!
Vida – que em mim repousou.
Como eu – Vida Imortal – em Ti, potente!
Movem-nos o peito em vão
Mil credos que não são mais do que enganos;
Sem valor, brotos malsãos,
Ou a ociosa espuma do Oceano,
A pôr dúvidas num ente
Pego assim pela Tua infinidade;
Preso tão seguramente
Na firme Rocha da imortalidade!
Com o amor de um grande enleio
Teu espírito o tempo eterno anima,
Para cima e de permeio,
Muda, apóia, dissolve, cria e ensina.
Se a Terra e a lua findassem,
Se não houvesse sóis nem universos,
E se, só, Te abandonassem,
Haveria existência em Ti, por certo.
A Morte não tem lugar,
Nem pode um único átomo abater:
És o Sopro mais o Ser,
Nada pode jamais Te exterminar.[1]

® Renata Cordeiro

[1] Este poema é considerado um dos “maiores da língua inglesa” e foi o último que Emily escreveu, em 1846, aparentemente num momento de grande inspiração. Nele, há a sagrada presença do Divino, uma força que dá vida e guia toda a evolução e o destino. O 4.a verso da 5.a estrofe mostra como a Natureza trabalha na transformação universal: “Muda, apóia, dissolve, cria e ensina”, uma descrição perfeita da evolução cíclica do mundo, o seu começo, a sua manutenção, em seguida, a sua dissolução, para voltar a ser criado e construído. Já a estrofe seguinte, fala-nos de sóis e universos, conceito maravilhoso e surpreendente: o do Espaço em si. Depois, nos últimos versos: A Morte não tem lugar,/Nem pode um único átomo abater, Emily alia o pronunciamento científico ao metafísico: És o Sopro mais o Ser,/Nada pode jamais Te exterminar. Há livros de filosofia em que isso é formulado, mas, às vezes, o brilho de um lampejo poético pode ser o farol que traz não só o esclarecimento, mas também a realização (leitura holística).