RENATA MARIA

Ela era ela era ela no centro da tela daquela manhã

Tudo o que não era ela se desvaneceu

Cristo, montanhas, florestas, acácias, ipês

Pranchas coladas na crista das ondas, as ondas suspensas no ar

Pássaros cristalizados no branco do céu

E eu, atolado na areia, perdia meus pés

Músicas imaginei

Mas o assombro gelou

Na minha boca as palavras que eu ia falar

Nem uma brisa soprou

Enquanto Renata Maria saía do mar

Dia após dia na praia com olhos vazados de já não a ver

Quieto como um pescador a juntar seus anzóis

Ou como algum salva-vidas no banco dos réus

Noite na praia deserta, deserta, deserta daquela mulher

Praia repleta de rastros em mil direções

Penso que todos os passos perdidos são meus

Eu já sabia, meu Deus

Tão fulgurante visão

Não se produz duas vezes no mesmo lugar

Mas que danado fui eu

Enquanto Renata Maria saía do mar

***

Ivan Lins/Chico Buarque