O VASO CHINÊS







O VASO CHINÊS


Nesses dias, quer dizer, já semanas, em que me tenho mantido reclusa dentro do vaso chinês, só me apetece pensar em como sair dele.
Como nele entrei, ainda não está totalmente claro, só sei que não posso sair bruscamente, pois posso quebrar-me toda, sem conserto posterior, ou ir desta para a outra.
Preciso ficar com as pessoas, tê-las ao meu lado, é uma necessidade humana, mas todo cuidado é pouco. Não pode haver choques, tropeços, encontrões, pois eu e o vaso podemos quebrar.
Então, como sair do vaso chinês? Sinceramente, não o sei, nem sei se um dia sairei. Vou, por vontade própria e por falta de melhor solução, ficar assim. Pelo menos, nesta posição, fico firme, consigo pensar e lembrar-me. Sinto-me viva.
@Renata Cordeiro
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 Decreto de liberdade e amor



A livrá-lo do constrangimento,
pesar e da imposição,
meu amor, por ser imenso, vem deixá-lo à vontade
para que encaminhe seus passos,
de acordo com a própria opção.




Em face do seu silêncio e da minha solidão,
meu amor, por ser imenso, aceita as sobras advindas
de um envolvimento que talvez sobreviva


por força da minha intenção.


Meu amor, por ser imenso,
poderá manter-se recluso
para que não julgue intruso


o tom de minhas notas digitais

e ora o deixa liberto para que se indigne
diante deste tolo decreto


que de vez expõe a pieguice dos meus ais.


Meu amor, por ser imenso,
entende o quão difícil é
desempenhar certos papéis,
por isto não finja pressentir cheia
quando baixa estiver sua maré. 




Meu amor, por ser imenso mudo de lamentos,

vibrará com a autenticidade de sua fé.

Ainda que para seu conforto, não mais proclame
este amor imenso, sólido, insólito, intenso,
a chama viva que me habita jamais se extinguirá.
Ah! este meu amor sem bom senso, desmedido,
indefenso... eternamente me acompanhará. 


maria da graça almeida